Privilege and Prejudice
- Ana Rupio

- 26 de ago. de 2024
- 2 min de leitura
Atualizado: 25 de set. de 2024
Um dia, escutei: “privilégio é tudo aquilo com que não temos de nos preocupar.”
Posso declarar que essa frase mudou a lente com que vejo a minha experiência quotidiana. Desde então, tenho prestado uma atenção mais fina ao que isso significa para mim, e quais os privilégios de que efetivamente gozo.
Manifestamente, vivo em elevado privilégio – sou uma pessoa heteronormativa, da classe média, caucasiana, de boa aparência, com um corpo também normativo, saudável e a viver num país democrático na Europa. Também sou, com orgulho, mulher. Por sua vez, ser mulher ainda não pode ser apregoado como privilégio – apesar do orgulho que sinto em sê-lo. Acredito, com esperança, que um dia o género seja um fator neutro na equação do privilégio. Por agora, nós mulheres ainda vivemos com maiores ou menores resquícios da culpa, medo e vergonha com que nos ensinaram a existir enquanto crescíamos.
Parece-me que preconceito se articula de certa forma com privilégio, por mais não seja pela falta de compaixão a que nos podemos dar ao luxo, a maior parte do tempo, inocentemente, pela simples razão de que não temos de nos preocupar. Escapam-nos nuances, as mesmas nuances que para outros são determinantes e que os impedem de viver com a mesma liberdade e de ser tratados com o mesmo respeito que eu tomo por garantido.
Vivi uma estória, simples mas denunciante:
Passou-se na minha pequena cidade, numa escaldante tarde de verão, dessas em que o alcatrão da estrada fumega e o povo está escondido em casa. Tive de ir a um minimercado comprar comida para o lanche. Estava despreocupadamente vestida, ainda afogueada com o prazer de mexer na terra; tinha estado a trabalhar na quinta. As minhas roupas estavam sujas, o cabelo desalinhado, as mãos por lavar, talvez um matreiro sorriso na cara – expressão de quem se rendeu à moleza ansiada toda a manhã, a satisfação do dever cumprido.
Entrei com a mesma atitude e confiança que teria em qualquer outro momento de trajes mais cuidados. Afinal de contas, continuo a ser eu mesma, não é verdade? Só que a minha indumentária destoava, pedia recato, insegurança, menos destreza. Pedia, entendi depois, desconfiança alheia.Percorro as prateleiras, estudo os produtos antes de decidir o que quero e, a dado momento, apercebi-me de que os empregados da loja me rondavam e estavam perto de invadir o meu espaço pessoal. Senti-me primeiramente confusa e, depois, muito subitamente, envergonhada. Embaraçada com a minha escassez, insuficiência, dissemelhança. Os meus movimentos, reparei, estavam a ser atentamente monitorizados pelas caras graves que me rodeavam. Falaram-me mal, perguntaram-me se “precisava de alguma coisa”. Percebi: pensam que vou roubar. Pensei: já antes ouvi que a minha cor de pele me poderia fazer passar por etnia cigana, ou árabe. Apercebi-me: estou suja e com “mau aspeto”. Nesse momento, perdi vários dos meus privilégios. Nesse momento, senti uma vulnerável indignação e zanga. Uma voz triste dentro: não sou pobre, nem pertenço a uma minoria étnica, mas se fosse era assim que me tratavam. Tratar-me-iam assim: em quase todos os lados, a maior parte do tempo.
No decurso desta ocorrência, refleti: haverá melhor forma de – verdadeiramente - desafiar um preconceito do que ter de encarná-lo, ainda que momentaneamente?